Educação Empreendedora como fator de mudança em comunidades

Oferecer caminhos de vida alternativos para pessoas inquietas de comunidades carentes através do desenvolvimento de suas competências e da educação empreendedora. Esse é o objetivo da ONG Novos Líderes Empreendedores, antes conhecida como Educate The Favela.

No último dia 12, estivemos em uma escola no bairro de Olaria, subúrbio carioca, para fazer parte da banca e assistir à apresentação final de sete alunos participantes do projeto.

Depois de um curso de 60 horas, com aulas de empreendedorismo, finanças, marketing e vários outros assuntos, eles tiveram que apresentar um pitch, defendendo seus projetos.

A ONG Novos Líderes Empreendedores

A história da ONG começou em 2015, com o encontro de um jovem holandês, Yannick, e um brasileiro do Complexo de Alemão, Lohran Santos. Yannick realizava um trabalho voluntário na favela.

Depois de algumas experiências difíceis, ambos decidiram criar a ONG Educate the Favela, para mudar a realidade do Complexo e de outras comunidades através da educação empreendedora.

O objetivo de todos os programas da ONG Novos Líderes Empreendedores é despertar e potencializar o empreendedor dentro de adolescentes e adultos. E assim gerar impacto nas comunidades ao seu redor e criar uma trajetória alternativa para o sucesso.

O primeiro capital investido foi proveniente do The Resolution Project, projeto focado em promover o desenvolvimento da liderança de jovens em todo o mundo através do empreendedorismo social. O evento na época foi sediado em uma conferência de Harvard.

Programas para jovens e adultos

Natale Papa, à frente da ONG atualmente, explicou que o maior objetivo é utilizar a educação empreendedora como vetor de mudança social.

“Buscamos, através de um programa de 60 horas, levar para nossos alunos conteúdos como Power Point, Excel, postura, apresentação, técnicas de comportamento, além de finanças, marketing e vendas. Conteúdos que vão ajudá-lo a embasar esse empreendedorismo. Essa chama que pode estar dentro dele, ou não.”

A Novos Líderes trabalha com dois tipos de capacitação:

⇒ Programa Escola

Programa focado em adolescentes com objetivo de desenvolver a mentalidade empreendedora através da elaboração e apresentação de projetos/negócios criados em grupos ou individuais.

⇒ Programa Comunidade

Programa focado em promover a cultura empreendedora através da criação de comunidades empreendedoras em favelas. São promovidos bate-papos com especialistas e empresários sobre temas relevantes aos empreendedores locais.

Roberta Soares, a professora, conta que os alunos entram no curso muito interessados, mas não sabem muito bem do que se trata.

“Eles vão descobrindo conforme o curso vai avançando. E vão ficando cada vez mais curiosos e interessados. Principalmente com o contato com empreendedores. Eles querem saber mais como funciona.”

Além das aulas com a professora, são levados empreendedores convidados, para compartilharem suas histórias, dicas e lições aprendidas durante a jornada à frente de um negócio próprio.

O pitch

Cada participante teve até 15 minutos para apresentar sua ideia e fundamentá-la. Os alunos usaram o recurso do Power Point para mostrar forças, fraquezas e oportunidade do negócio. Também precisaram demonstrar custos, preços sugeridos e metas a curto e longo prazo.

“Isso que vocês viram aqui hoje foram jovens que trouxeram suas ideias e organizaram seus pensamentos já imbuídos nesse conteúdo que agregamos no programa. Que a partir daí seja só o primeiro degrau que eles vão perseguir nessa vida empreendedora”, desejou Natale.

Ao final de cada pitch, os jurados apontaram pontos fortes e fracos, e sugeriram melhorias nos projetos.

Amanda Veiratto é moradora do Complexo do Alemão, já participou do programa e conseguiu abrir seu próprio negócio. Hoje ela faz parte ativamente da ONG, coordenando as aulas e apresentações dos alunos.

Ela conta que a experiência com essa turma foi muito boa porque se viu muito nos alunos. Quando entrou na ONG, ela não sabia o que era empreender. Não sabia que podia se tornar uma empreendedora.

Eu sou moradora de favela, moro no Complexo do Alemão. A ideia que eu tinha de qualidade de vida antes de conhecer a ONG Novos Líderes Empreendedores era bem diferente. Eu não sabia que eu poderia chegar aonde eu cheguei.

O prêmio

Depois de todas as apresentações, os jurados se reuniram para comparar notas e decidir os vencedores. A unanimidade foi um empate, dividindo o prêmio entre dois jovens empreendedores.

A boa notícia é que além do recurso financeiro, os participantes ganharam a oportunidade de fazer um estágio na área de interesse. Esse é, aliás, um dos maiores objetivos da ONG: usar a rede de contatos dos empreendedores apoiadores para proporcionar novas oportunidades aos alunos, que não se resumem somente a dinheiro.

Em outras edições, o programa já chegou a pagar R$3 mil ao ganhador. Uma quantia que faz diferença na hora de tirar a ideia do papel e começar o próprio negócio.

Este ano, por falta de patrocínio e apoio, o valor foi de R$300, apenas simbólico. Mas que já permite alguma mudança na vida desses jovens empreendedores.

Camilly Vitória, uma das ganhadoras, pretende vender sanduíches saudáveis. Sua apresentação contou, inclusive, com amostras do produto, focado em ingredientes leves e benéficos para a saúde.

O curso é muito bom porque ensina a ter experiência nessa área de empreendedorismo. E me incentivou a abrir um projeto. Eu nunca imaginei que ia abrir meu próprio projeto.

Já para Pablo Vasconcelos, o programa é uma chance valiosa, em um país que enfrenta vários problemas, como a desigualdade e a crise econômica e política.

Ele criou um restaurante de comida canadense, após identificar que o modelo tinha grande aceitação em São Paulo, mas nenhuma oferta no Rio.

Com tanta crise, algumas pessoas podem se destacar empreendendo. E é isso que eu imagino para mim.

Regularização no Brasil

Um dos empecilhos para conseguir patrocínio é que a ONG está registrada na Holanda, terra natal do fundador Yannick. Isso acaba afastando empresas brasileiras, por não proporcionar a contrapartida de isenção de impostos.

“Agora em 2018, estamos em um processo de regularização da ONG e formalização aqui no Brasil. Porque nosso objetivo é poder ter muito mais capilaridade. Levar esse mesmo programa a diversas outras comunidades do Rio de Janeiro, do Brasil e até do mundo, quem sabe”, planeja Natale.

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