Eduardo Glitz: "trabalhar muito, amar o que faz e arriscar"

Gaúcho formado em Administração de Empresas, Eduardo Glitz desponta como um dos nomes do investimento em startups. Depois de se destacar à frente da XP Investimentos, ele deixou a corretora para recomeçar a empreender, apostando em fintechs. Também é um dos sócios da Startse, o maior ecossistema de startups do país.

Recebemos Eduardo para uma conversa sobre sua história de sucesso, desde o início da carreira até hoje. O empreendedor contou sobre sua viagem de 407 dias pelo mundo, o que aprendeu com outras culturas e mercados, e o que aposta que será tendência para os próximos anos.

A reviravolta na XP Investimentos

A carreira de Eduardo Glitz  começou como estagiário em uma grande empresa portuguesa de varejo do Sul. Depois de sete anos, essa empresa foi comprada pelo Wallmart, naquela época a maior companhia do planeta.

“Mas eu não gostava do que eu fazia. Trabalhava na área de logística, depois comercial, e não atendia a minha ambição. Eu era muito apaixonado pelo mercado financeiro. Só que eu estava em Porto Alegre, onde nada acontecia no mercado financeiro. Era tudo em São Paulo e Rio de Janeiro.”

Em determinado momento, ele teve a oportunidade de conhecer algumas pessoas, que depois se tornaram seus amigos, que estavam começando um negócio no mercado financeiro. Foi aí que começou sua história na XP Investimentos.

Os amigos o chamaram para ser sócio e ajudar a construir a empresa. “A XP já tinha começado, não fui o fundador. Na época eu achava que mercado financeiro era glamour, Bolsa de Valores e ficar na frente da tela comprando e vendendo ações. Na verdade, era panfletar nas ruas e convidar as pessoas para virem nos nossos cursos e eventos, fazer palestras para ensinar as pessoas a investirem.”

Aquilo começou a dar prazer a Eduardo. Isso era 2006, depois veio 2007, um dos melhores anos da Bolsa de Valores no Brasil. Mas logo depois, em 2008, chegou a grande crise mundial.

“Nós éramos uma empresa que trabalhava com a Bolsa de Valores. O mundo inteiro quebrou e as pessoas não queriam mais saber de investimento de risco. Já tínhamos uma empresa grande, com funcionários, e percebemos que nosso produto era muito bom só quando a Bolsa estava subindo e as pessoas queriam investir.”

Foi aí que a XP Investimentos quase quebrou. “Demos uma grande virada no modelo de negócios e fomos entender o que os grandes players faziam lá fora. Viajamos para os Estados Unidos, nos aprofundamos e tentamos trazer o conceito de shopping de investimentos. Depois de alguns anos isso começou a dar certo e as pessoas começaram a entender.”

Cultura lifelong learning

Eduardo conta que naquela época, quando uma pessoa viajar para o exterior, parecia que estava “visitando o futuro”. “Dizíamos que estávamos 20 anos atrás. Estávamos visitando o futuro e tendo a capacidade de se preparar e antecipar aquele futuro.”

Hoje, no entanto, essa realidade é bem diferente. A velocidade das mudanças é muito maior.

“Em qualquer mercado, dificilmente um país vai estar 20 anos na frente do outro. Eu costumo dizer que estamos vivendo um conceito de que temos uma nova economia por surgir, mas já tem muita coisa acontecendo.”

Produtos vão deixar de existir, empregos, marcas, profissões vão deixar de existir. Nosso grande desafio é como se preparar para isso.

Para ele, estamos em um mundo onde não existe mais o pensamento de “vou estudar, vou me formar em Engenharia e vou ser engenheiro para o resto da vida”.

“A velocidade das informações é tão grande que exige o que se chama hoje de lifelong learning, que é educação continuada. Eu tenho sempre que estar me preparando para o próximo passo, porque vou ficar obsoleto.”

Empreender no mundo de hoje

Empreender nunca foi tão fácil.” Para Eduardo, isso se deve por conta da tecnologia.

“Eu lembro há 20 anos, quando eu estava na XP, tínhamos que gastar dinheiro de servidor e custos enormes de tecnologia, que hoje não temos. Hoje uma pessoa numa comunidade, com um celular, tem a força da TV Globo.”

Ele explica que a tecnologia passou a dar mais acesso às pessoas. “Um exemplo super clássico: quando eu estudava no colégio, para eu ter acesso à informação, a maior fonte era a enciclopédia. Tinha que ir na biblioteca, era uma coisa cara que não se tinha em casa. Então veio a tecnologia, e a internet permitiu que o acesso à informação fosse muito mais simples e barato. E isso vai acontecendo em todos os mercados.”

Ele dá outro exemplo, no mercado da música. “Há 20 anos para eu comprar 10 músicas, me custava 15 dólares um CD. Depois veio a Apple Store que me permitia comprar uma música a 1 dólar. Hoje eu vou no Spotify e por 7 dólares eu tenho todas as músicas do planeta.”

A tecnologia, segundo Eduardo, democratiza muita coisa, e isso facilita muito o empreendedorismo. “Fica muito mais fácil arriscar, porque eu consigo ter muito mais acesso às tecnologias para empreender.”

Volta ao mundo em 407 dias

eduardo glitz volta ao mundo

Depois de fazer uma bela carreira no mercado financeiro, Eduardo Glitz achou que era hora de fazer algo diferente na vida. “Viver uma vida diferente”, como ele mesmo diz.

“Programei que eu queria conhecer muitos países e isso se tornou uma volta ao mundo.” Foram 407 dias de viagem, passando por 42 países.

Mas, quando o embarque começou a se aproximar, ele pensou em uma oportunidade.

“Eu adoro fazer negócio, adoro empreender. Então, pensei: se cada país que eu for, eu entender, visitar as empresas, conversar com os empresários, for nas associações, quanta coisa eu posso trazer de volta, de ideias, conceitos, tendências, para ajudar as pessoas aqui.”

Foi exatamente isso que ele fez. Em cada país que passou, tentou se aprofundar, entender o que está acontecendo e quais são as oportunidades. Tendo como companheira de viagem sua esposa Thainá Cabral, ele conheceu diversas culturas e teve experiências incríveis.

Para compartilhar essa experiência, os dois resolveram reunir as melhores fotos e histórias em um livro, com lançamento marcado para dezembro.

De onde vem a inovação do mundo

Para Eduardo, hoje existem dois lugares de onde vem a inovação no mundo: Vale do Silício e China.

“Não tenho nenhuma dúvida de que toda a tecnologia, 95% ou talvez 99% das tecnologias que vão reescrever e dar linha para o nosso futuro estão sendo desenvolvidas hoje nesses dois polos.”

Para ele, o maior aprendizado que se tem no Vale do Silício é a forma de empreender. “No Vale do Silício, a aceitabilidade ao risco é muito grande. Porque empreender é arriscar.”

Glitz conta que quando as pessoas perguntam “o que eu faço para o meu negócio dar certo”, ele indica seus três pilares:

1) Tem que arriscar;

2) Tem que amar o que você faz;

3) Você vai ter que trabalhar muito.

“Se um deles faltar, não vai dar certo.”

Ele conta que o Vale do Silício defende muito a questão do risco. E risco significa falhar, aceitar a falha. “O que o Vale diz é que uma pessoa que errou cinco vezes tem muito mais chances de dar certo do que uma pessoa que nunca errou.”

E, segundo ele, isso é muito diferente do nosso mercado hoje. “O cara que falha, que quebra, não é visto de uma forma legal pelo mercado.”

Tendências de mercado

Quando o assunto é tendência de mercado, o mais usual é ouvir termos como tecnologia, inteligência artificial, blockchain, machine learning, carro autônomo.

“Acho que existe uma série de tecnologias que vão mudar nossa vida de uma forma muito chocante nos próximos 10 anos. Mas saindo da tecnologia, acho que tem muito o conceito de alimentação saudável e de sustentabilidade. Ainda existem muitas empresas que não se deram conta disso.”

Para ele, alimentação saudável e/ou orgânica é cada vez mais vista como tendência nos países que estão na frente.

Ideia tem zero valor. Tem gente que resolveu montar uma churrascaria e se tornou bilionário. Vai fazer diferença a sua capacidade de executar a ideia muito bem. E só vai executar muito bem se primar pelos três pilares: trabalhar muito, amar o que faz e se estiver disposto a arriscar.

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