Da fábrica ao copo: os desafios do mercado de cerveja

O mercado de cerveja é um dos mais promissores para 2018  e para os próximos anos. Os números comprovam isso: segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) houve um crescimento de 37,7% no número de cervejarias registradas no Brasil em 2017. O ano encerrou com 679 cervejarias e 8.900 rótulos registrados, uma média de 13 para cada marca.

Para falar sobre os desafios do mercado de cerveja, reunimos três empreendedores cervejeiros nesse podcast especial. Eles falam sobre cadeia produtiva, logística, armazenamento, distribuição, branding e muito mais. E também dão dicas para você empreender no mercado de cerveja.

O bate papo foi conduzido pelo cervejeiro caseiro Rodrigo Carvalho, com os convidados Leo Gil e Luiz Marques. Apaixonado pelo tema, Rodrigo se dedica há algum tempo ao estudo do mercado de cerveja e à produção caseira.

Leo Gil é um dos sócios fundadores da Three Monkeys Beer, cervejaria artesanal que vem se destacando no cenário carioca. Ele é o responsável de Marketing e Comunicação da marca, que nasceu entre três amigos, transformando diversão em negócio.

Luiz Marques é sócio fundador da UpBeer, distribuidora de cervejas. Depois de 17 anos trabalhando na Ambev, ele resolveu empreender com foco nas cervejas especiais.

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Rodrigo Carvalho, Leo Gil e Luiz Marques na gravação do podcast sobre o mercado de cerveja

Números do mercado de cerveja

Os dados oficiais divulgados pelo Mapa já são bem motivadores. Mas a boa notícia é que a estimativa é de que o crescimento do mercado de cerveja seja ainda maior, segundo a Associação Brasileira da Cerveja Artesanal (Abracerva).

É que o Mapa não considera, por exemplo, as cervejarias ciganas, que são negócios constituídos formalmente, mas que terceirizam a produção. De acordo com a Abracerva, este número também cresceu muito nos últimos anos.

O mercado de cerveja no Brasil não deixa nada a desejar comparado a outros países. Em produção de cerveja, o Brasil só perde para a China e os Estados Unidos. São 14 bilhões de litros por ano, e a tendência é crescente nos últimos 30 anos.

A geração de empregos no setor também é expressiva. Um levantamento preliminar realizado pela Abracerva revela que o número de contratações das cervejarias artesanais também cresceu.

De acordo com informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), cervejarias com menos de 100 funcionários geraram 723 novos postos de trabalho de janeiro a novembro de 2017.

Termos que você precisa saber

Para ficar por dentro do mercado de cerveja e acompanhar melhor o podcast, você precisa entender alguns termos muito usados nessa área.

Cervejas Mainstream – As cervejas chamadas de mainstream têm um processo de fabricação bastante elaborado, para garantir a qualidade da reprodutibilidade da receita. São cervejas mais populares, de massa. Para baratear a produção utilizam cereais não maltados tais como milho e arroz.

Cervejas Premium – Também conhecidas como cervejas especiais, tem o preço em média 20% maior do que as mainstream. São cervejas com mais lúpulo e maior teor de malte de cevada, e o amargor é mais presente. Exemplos de cervejas Premium são Heineken, Brahma Extra e Stella Artois.

Cervejas Artesanais – As cervejas ditas artesanais têm foco na licença criativa. São cervejas de produções pequenas e mais ousadas, principalmente em termos de ingredientes. O processo de maturação de uma cerveja artesanal é bem mais demorado que uma cerveja comum.

Craft Beer – Em inglês significa cerveja artesanal. O termo é usado também para se referir ao mercado e à cultura da cerveja artesanal.

Brew Pub – É um pub (bar) com fabricação da própria de cerveja. No mesmo local a cerveja é fabricada, vendida e consumida. Esse modelo de negócio ainda é pouco utilizado no Brasil, mas é muito forte em países como Irlanda, Inglaterra e EUA.

Cervejeiro Cigano – É o cervejeiro que não tem um local fixo para produzir. Ele sabe como produzir a cerveja, tem receitas próprias, mas não possui os equipamentos necessários para produção em uma escala maior. Por isso, peregrina em fábricas de terceiros para produzir sua própria cerveja.

Cervejeiro Paneleiro – Há séculos, a cerveja era produzida em grandes panelas. E ainda hoje existem os cervejeiros que adotam essa técnica milenar. Normalmente são apreciadores e consumidores que se transformam em cervejeiros, produzindo em casa e com os amigos.

Confira os bastidores da gravação

Por que empreender no mercado de cerveja?

Luiz Marques trabalhou mais de dez anos na Ambev, e nos últimos anos foi quando entrou, de fato, nesse mundo de cervejas especiais, entre 2011 e 2014. “Eu percebi que lá dentro dávamos muita importância a esse mercado promissor, mas esbarrávamos no operacional, na distribuição desses produtos.”

Ele percebeu que, como era um mercado muito nichado, a Ambev tinha dificuldade de encaixar isso nos seus processos comerciais. Foi essa oportunidade, aliada à realização pessoal, o que o motivou a fazer a transição do mundo corporativo para o empreendedorismo.

Já a Three Monkeys Beer tem sua origem na amizade de três jovens apaixonados por cerveja. Leo Gil conta que ele e os outros sócios, Bernando e Felipe, são amigos há muito tempo. Com Bernardo, por exemplo, ele estudou no mesmo colégio desde criança.

“Tivemos experiências da vida, de viagens e de morar fora, onde realmente descobrimos o que era cerveja de verdade. Quando voltamos para o Rio, era difícil encontrar. Era muito caro e o que você bebia lá fora não encontrava aqui. Até o momento que pensamos que seria legal começar a fazer a nossa.”

Mostrar para os amigos o que é cerveja de verdade foi a motivação dos fundadores da Three Monkeys Beer. Tudo começou com a ideia, e um deles (Felipe) encontrou um curso na área. Era o curso do conhecido cervejeiro Botto.

Em 2012, eles resolveram fazer o curso para entender o que é fazer cerveja. Em um dia intenso, aprenderam e se apaixonaram ainda mais, e já saíram de lá com o nome da empresa escolhido.

Cerca de dois meses depois disso, começaram a produzir na panela. “Foi um tempo dando para os amigos e aprendendo um pouco mais. Por incrível que pareça nossa primeira cerveja já ficou boa, o que a gente nunca acreditava que ia acontecer.”

Até sair da panela para ir para uma fábrica foram muitas produções caseiras.

“O turning point [ponto de virada] foi quando percebemos que não estávamos conseguindo beber nossa própria cerveja, nem nossos amigos. Pensamos: temos que dar para tanta gente que vamos ter que produzir mais. E o que precisa para produzir mais? Foi aí que a Three Monkeys realmente virou uma cervejaria.”

Paixão por cerveja e por empreender

Rodrigo Carvalho lembrou que hoje vê muito cervejeiro caseiro querendo dar esse passo. Muitos já têm uma produção, seja ela de que tamanho for, e não sabem como proceder para dar esse próximo passo.

A questão que Rodrigo levanta é: o empreendedorismo nasce da paixão, mas depois que o negócio fica profissional, como fica a dualidade de ter o peso do trabalho do que antes era só paixão?

Leo conta que na Three Monkeys eles sempre foram apaixonados por cerveja, mas também por empreender. “Ter o nosso negócio, conseguir criar algo diferente e quebrar algumas barreiras. Isso que conversamos muito lá dentro. Como quebramos as barreiras que vemos na vida?”

No mundo cervejeiro, a primeira barreira que quiseram quebrar foi mostrar o que é cerveja de verdade, diferente do que o público estava acostumado. Além disso, como empresa, eles procuram quebrar barreiras de gestão, de ações, de tudo que envolve uma empresa.

“Sem dúvida, quando nos dedicamos 100% os resultados melhoraram. Desde o início pensamos que se você tem dedicação parcial vai ter resultado parcial.”

O que era uma paixão em termos de cerveja foi se transformando em uma cervejaria em nascimento. E hoje todo dia quando acordamos, e por isso somos muito felizes no que fazemos, ainda temos aquela paixão diária do crescimento de uma empresa. – Leo Gil

Já Marques brinca com sua paixão por cerveja: “Se meu Instagram é @marquesbeer, não preciso dizer mais nada quanto à minha paixão pela cerveja. É quase meu sobrenome”.

Ele tem 20 anos nessa estrada, 17 deles na Ambev e quase quatro na UpBeer, sempre com a cerveja como carro-chefe.

“Sempre respiramos cerveja dentro da Ambev. Sempre pudemos enxergar de que forma a cerveja pode chegar nas pessoas, seja através do paladar, de uma ferramenta de marketing ou de conscientização.”

Na UpBeer ele pode conviver ainda mais com isso. Porque como dono e responsável direto, passou a ser o responsável por tudo que acontece com a empresa no mercado. “Isso traz um cuidado na hora de evoluir e faz com que essa paixão cresça.”

Quer botar sua cerveja no mercado?

Pedimos ao Leo Gil, da Three Monkeys Beer, uma lista com cinco dicas para quem quer empreender no mercado de cerveja. No vídeo, ele dá o passo a passo para você construir sua empresa e sua marca, e lançar sua cerveja da melhor maneira no mercado. Assista agora!

Vídeo dicas cerveja

Estratégia para entrar nesse mercado

Luiz Marques
Luiz Marques, da UpBeer

Desde meados de 2017, Marques tomou a decisão de seguir em frente focando nas cervejas Therezópolis e Estrella Galícia, da Ambev. “Somos um parceiro estratégico no Rio de Janeiro. Topamos entrar com eles para ajudar a construir marca.”

Hoje ele comemora essa parceria, com resultados expressivos que envolvem capilaridade no mercado e maior acesso das pessoas a essas cervejas.

O diferencial da UpBeer é não fazer apenas a distribuição das cervejas. Marques é um parceiro estratégico, inclusive em eventos, extrapolando a logística e atuando também no branding dessas marcas.

Leo ressalta que quando começou, lá em 2012, o mercado de cerveja artesanal ainda estava no início. “O que estávamos acostumados a beber aqui e era mais fácil de encontrar eram as alemães e belgas. Não tinha essa variedade que temos hoje.”

Ele conta que aprendeu a beber cerveja artesanal na França, em “um bar belga incrível com 300 rótulos”. A estratégia para começar foi então uma cerveja belga.

“Quando resolvemos abrir a cervejaria, pensamos que tinha que ser uma belga. Queríamos ter uma cerveja de ótima qualidade e que nós curtíssemos. De certa maneira, era uma cerveja de uma escola tradicional, mas fomos dando uma ‘cariocada’ nela.”

Para Leo, pensar no público é importante, mas é preciso fazer o que você curte. “Nosso portfólio hoje tem uma certa amplitude. Às vezes fazemos uma tendência, mas que gostamos também. Fazer algo que você não gosta, para nós, não rola.”

No caso de Marques, o início foi mais bem pensado e estruturado. Ele e seus sócios fizeram um plano de negócios e ficaram de um mês e meio a dois meses trabalhando nele.

“É claro que é um plano que não parte do zero, porque eu já trago uma escola que dispensa comentários, a Ambev. Já começo do meio do caminho, mas preciso respeitar alguns números e tendências de mercado.”

Entender a viabilidade do negócio, ver se é possível e fazer um estudo concorrencial, para Marques, é essencial. “De fato, chegamos à conclusão de que era um mercado promissor. Quatro anos depois percebemos que estávamos absolutamente certos.”

A técnica do “vai lá e faz”

Leo Gil
Leo Gil, da Three Monkeys Beer

Para contar a história da Three Monkeys, Leo gosta de falar que é da escola do “vai lá e faz”.

“Hoje somos uma empresa scale-up da Endeavor. Estudamos bastante como melhorar a empresa, melhorar gestão e práticas dentro da empresa. Mas no início o que realmente nos impulsionou foi o ‘vai lá e faz’. Nosso modelo de negócio inicial foi muito mais o do ‘vamos produzir e vamos vender’.”

A Scale-up Endeavor é uma comunidade exclusiva de empresas que mais crescem no Brasil. São justamente as empresas que estão mudando de faixa, se tornando grandes.

Mas 92% das scale-ups são pequenos e médios negócios que estão só começando. A Endeavor é uma organização global sem fins lucrativos com a missão de multiplicar o poder de transformação do empreendedor brasileiro.

Na Three Monkeys, os sócios fundadores e os sócios até hoje se complementam. Leo atua no de marketing e comunicação, e os outros são todos engenheiros. Mas um tem uma experiência comercial, o outro se deslocou para ser o cervejeiro, e outro é mais financeiro.

“Surgimos de uma ideia e uma vontade de fazer acontecer, e com o tempo fomos nos organizando melhor. Sem dúvida, o empreendedor tem que seguir alguns caminhos no início. Testar o produto, ver como foi a resposta, corrigir alguma coisa e, aí sim, lançar. Só que para nós tinha que ser muito rápido.”

Para quem ainda acha que para abrir empresa é preciso ter muito dinheiro, ele avisa: “Não é assim”.

Para Leo, o importante é se organizar e ter uma ideia. “Tem que ter um produto ou serviço que vai fazer a diferença na vida das pessoas. Tendo isso, ‘mete bronca’!”

Investimento inicial

Marques explica que a UpBeer tem investidor, mas independentemente disso, ele conseguiu otimizar bem seu investimento inicial. Entender o que de fato era necessário para o investimento inicial.

“Seja investimento micro ou maior, físico, caminhão, equipe, capacitação, treinamento. Conseguimos viabilizar isso tudo e no início de janeiro de 2014 colocamos o bloco na rua.”

O diferencial, para ele, foi justamente o ativo que trouxe da Ambev: networking (relacionamento). “Eu já pude largar com uma carteira de clientes bem avançada. Já tínhamos um bloco de clientes atendendo de imediato.”

O estoque, segundo ele, foi o maior investimento inicial. “No caso do cervejeiro, ele pode produzir a medida que vai ganhando escala. Nós, não. Como trabalhamos com parceiros, o estoque já tem que começar maior.”

Para Leo, falando de barreira de entrada e dificuldades para começar a empresa, o negócio de distribuição requer um investimento muito maior do que uma cervejaria.

“Você vai precisar de frota, vendedor na rua, armazenagem. Hoje tem cervejaria cigana que tem simplesmente uma marca, uma receita, paga uma produção e vai para a rua. Para fazer um trabalho muito bom regular, estamos falando de outro nível de investimento, mas para começar do zero não vejo uma necessidade assim tão grande.”

Aprendendo com os erros

A Three Monkeys surgiu há quatro anos e meio. Antes, era vista muito como uma cervejaria artesanal do Rio. O que já fazia uma diferença.

Leo conta que a marca participou muito da Babilônia Feira Hype, onde havia um bar grande e só um estande de cerveja artesanal, que era o dele. Então, todo mundo ia lá.

“Nosso DNA sempre foi de trazer coisas novas. Em 2014, ainda acreditávamos que o mercado estava conhecendo e provando. E demos uma certa acalmada. Quando vimos, a oferta de cervejarias estava gigante, com a oferta de cervejas aumentando. Eu, pessoalmente, achei que estávamos ficando para trás.”

Esse, para ele, foi um dos maiores erros da empresa. Achar que o mercado estava estável e deixar de inovar por um tempo.

“Em 2016, chegou o momento do que sempre quisemos fazer: inovar. Foi quando em 2017 encontramos esse espaço para inovar, e o público estava pedindo isso. Começamos a criar muito e foi muito legal para nós como cervejeiros e como marca.”

Marques prefere dizer que vive em função dos pequenos erros, que acontecem a todo momento. “Seja porque está chovendo muito e aí vem os transtornos para entregar, seja pela sazonalidade…”

Ele conta que um momento em que aprendeu bastante foi quando começou a trabalhar com chopp. Até meados do ano passado, trabalhava só com cerveja. E desde então começou também com o chopp Therezópolis.

“E o chopp eu nem preciso dizer a capacidade técnica que é importante você ter, e o principal, na casa das pessoas. Se já é desafiador para quem tem uma grande capacidade técnica, imagina para quem teve a ousadia de começar com aquilo. Tivemos que aprender a mexer com chopp e a instalar na casa das pessoas.”

Chopp, lata ou garrafa?

Segundo Marques, o chopp rentabiliza mais, sem dúvidas. Mas ele é extremamente delicado. Não ter o mínimo de cuidado é sinônimo de perda de chopp.

“O chopp Therezópolis, por exemplo, tem 10 dias de validade, então você imagina o tempo que tem até chegar no cliente.”

A garrafa traz uma flexibilidade de estocagem maior. Traz uma tranquilidade para trabalhar melhor no mercado. “Quando eu vou buscar o chopp semanalmente, tenho que pegar toda a minha demanda, todos os pedidos, para eu subir e já descer entregando em todo mundo.”

Depois que você abre o barril, por exemplo, o chopp tem uma vida útil de 48 a 72 horas.

Brincamos dizendo que o chopp é o único produto em que a embalagem final não depende de nós. A lata ou garrafa você entrega na embalagem final. Se o cliente não tiver o mesmo cuidado e envolvimento que nós temos, o que deveria ser um produto de extrema qualidade fica ruim. – Luiz Marques

A Three Monkeys começou com chopp e permaneceu assim por um ano. Mas não foi por vontade própria. Foi muito mais por capacidade fabril. “Não conseguíamos envasar da forma como queríamos.”

Para Leo, todos os vasilhames são muito importantes. “Tudo que você consegue colocar em uma gôndola ou uma geladeira é importante. Porque é uma forma de você colocar sua marca e chegar a mais pessoas.”

Three Monkeys Beer
A Three Monkeys Beer trabalha com cervejas em garrafa, lata e chopp

Existem vantagens dos dois lados. “O chopp é mais fresco e vai levar para o consumidor exatamente o que você quis fazer. Você vai entregar a cerveja na sua melhor forma para o cliente. Mas tem todos os problemas que um barril pode dar, seja por pressão ou outros.”

Já a garrafa é uma possibilidade de chegar a mais pessoas, de acordo com Leo. Seja como produto ou como marca. “A lata é melhor em termos de reciclagem, segura mais o produto porque veda mais em relação à iluminação. Hoje nossas latas são o chopp vivo. Sem dúvida em termos de logística é mais complexo.”

É importante que uma cervejaria trabalhe com todas as formas. “São formas diferentes de trabalhar e conseguir chegar nas pessoas.”

Distribuição e logística

Ter um caminhão refrigerado encarece. Mas ao mesmo tempo, lembra Leo, mantém o frescor, aroma, sabor da cerveja, seja em barril ou em lata. “Tem que ter cadeia fria.”

Ele conta que a Three Monkeys nunca teve distribuidor no Rio de Janeiro. “Decidimos que nós íamos fazer nossa própria distribuição. Porque era uma forma diferente de ter o contato com o ponto de venda. É a nossa forma de falar. É a nossa forma de lidar com nosso cliente.”

Há seis meses eles entraram na sociedade de uma empresa de logística no Rio. Os fundadores são cervejarias artesanais também.

“E estamos fazendo um trabalho interno de logística com outras cervejarias. Essa parte de logística é bem importante. O cuidado diário de cada produto que vamos entregar, o frescor do produto, a nota certinha, o relacionamento que vamos ter.”

Para Leo, todas as etapas do processo requerem conhecimento e disposição. Iniciar uma cervejaria hoje é muito complexo.

“Já foi criado um padrão de desenvolvimento aqui no Rio, em outros lugares também. Para começar, você tem que estar por dentro, saber o que você quer com sua empresa e sua marca. Tem que estar por dentro do processo para entender que desde a fábrica até a boca do cliente, existem milhões de momentos em que você pode ter problemas.”

Exigências legais específicas

A UpBeer faz parte de um grupo, que já tinha duas vertentes: operação de bar e produção de eventos. Por isso, Marques não teve grandes dificuldades para empreender, do ponto de vista jurídico.

“Entramos com a vertente da distribuição, mas já tínhamos toda uma estrutura e expertise. A grande dificuldade é o que todo mundo fala. O questionamento do peso do imposto no negócio. A dificuldade é muito mais em administrar o peso do imposto dentro da composição de valores, para calcular margem e rentabilidade.”

Toda a parte de dificuldades, segundo Leo, está muito relacionada ao registro no Ministério da Agricultura (Mapa) para colocar uma cerveja para vender. Ou o registro de marca.

“Cada cerveja tem que ter o registro específico do Mapa, da forma que você está vendendo, na fábrica específica. Se eu tenho, por exemplo, uma Golden Ale produzida na fábrica A e na fábrica B, eu preciso de dois registros, um para cada fábrica.”

Para os dois empreendedores, é muito importante que as pessoas entendam essa parte legal para lançar uma cerveja.

“O grande problema que temos hoje é tributação. Não tem muito o que falar além disso. Porque se nossa cerveja hoje ainda tem o preço elevado, grande parte é por causa de tributação. É algo que tentamos explicar para as pessoas”, diz Leo.

Essa discussão, inclusive, é levantada por ele na Associação de Microcervejarias Artesanais do Rio de Janeiro (Amacerva), na qual é diretor.

Incentivos para cervejarias

Além da tributação sobre os produtos, outra questão apontada é a burocracia para abrir uma fábrica de cerveja. Rodrigo Carvalho lembra do caso da cidade de Niterói (Estado do Rio de Janeiro), que tem recebido novas fábricas por conceder esses incentivos.

Segundo Leo, algumas cervejarias estão subindo para cidades como Guapimirim, Petrópolis e Três Rios. “Eu sou carioca, nascido aqui, e eu quero trabalhar para que esse cenário vire o jogo aqui. Por isso que eu tenho a minha cervejaria e por isso que eu sou diretor da Amacerva.”

Ele conta que na Associação estão iniciando essa conversa, e ele acredita que as coisas vão mudar.

“Hoje, por exemplo, estamos conversando muito sobre brew pub. Existem alguns lugares do Rio em que não é possível construir um brew pub, por conta de legislação e zoneamento. Eu acho muito legal esse cenário de algumas cidades estarem dando incentivo. Mas tenho fé e coloco meu trabalho diário para virar esse jogo aqui no Rio. E as pessoas daqui a pouco vão conseguir visitar a fábrica da Three Monkeys no Rio.”

Além disso, ele ressalta a questão da geração de empregos. Leo vem de uma multinacional onde aprendeu muito sobre sustentabilidade. “Como conseguimos melhorar a vida das pessoas? Se eu tenho uma fábrica eu consigo dar mais emprego e melhorar um pouco o entorno dessa fábrica.”

Para Rodrigo, é fundamental manter a produção próxima do consumidor. Faz toda a diferença.

E o preço?

O exercício de posicionar o preço e tentar atender ao máximo a expectativa do consumidor é constante, segundo Marques. Mas ele lembra que o consumidor também precisa ter o entendimento de que a cerveja não é barata.

“Não adianta ele comparar a sua cerveja com uma de qualidade inferior. Mas temos que pensar de que forma podemos chegar ao preço mais justo para a cerveja que queremos.”

Leo explica que toda a construção de preço hoje é muito relativa, de acordo com cada cerveja. “Em algumas, o tipo de insumo que você vai utilizar vai deixar a cerveja mais cara mesmo. Mas por outro lado, você vai ter uma experiência completamente diferente.”

Ambos concordam que por conta desses insumos mais caros e da criatividade da cervejaria a cerveja ficou um pouco mais cara. Mas o que contribui mais para o preço alto é a tributação. “Cada cerveja vai ter um preço, não tem muito jeito”, diz Leo.

O caminho, segundo ele, é “pensar em maneiras, trabalhar com força de vontade e esperar essa força de vontade de uma galera muito maior, para ter preços mais justos”.

Com preços mais justos, haverá cada vez mais pessoas consumindo, mais empresas e mais empregos. “É um desenvolvimento maior da cidade. Temos muito trabalho pela frente.”

Rodrigo compara o consumo de cerveja ao do vinho. “As pessoas cresceram acostumadas a beber um vinho de baixa qualidade e um dia provaram um chileno, um argentino, um europeu. E nunca mais conseguiram beber aquele vinho de baixa qualidade.”

Hoje é isso que acontece no mercado de cerveja. “Vejo amigos que vão para uma festa e levam a própria cerveja, porque não sabem o que vão encontrar lá. E se recusam a beber a cerveja que consideram inferior.”

O papel social da cerveja

Se antes a cerveja era servida naquele copo americano padrão, hoje é vasta a gama de taças e canecas específicas para cada tipo da bebida. “Tem a questão do ritual. A cerveja hoje já é servida em um copo específico para aquele tipo de cerveja. Na nossa época era cerveja virada no gargalo ou no copo americano padrão”, lembra Marques.

Hoje até o ambulante está vendendo cervejas premium. E quando ele oferece as duas (premium e mainstream), o consumidor prefere pagar R$8 ou R$10 na premium do que R$5 na mainstream. “Ou seja, é o ambulante mais exigente, é o consumidor mais exigente, então não tem como nós não sermos mais exigentes.”

Na Three Monkeys, Leo explica que o portfólio tem a ver com isso. “Nosso grande objetivo é quebrar barreiras. Mas eu preciso mostrar para a pessoa que está acostumada a beber mainstream o que é craft beer. Ao mesmo tempo, com o meu DNA de inovação, eu preciso também agradar o cara que curte craft. Preciso que ele fale ‘você viu o que a Three Monkeys fez? Eu nunca tinha bebido uma assim’.”

Por isso, segundo ele, a paixão é diária. “Um dia fazemos uma coisa para uma pessoa. Outro dia fazemos outra coisa para outro pessoa. Todo dia é dia de criatividade e inovação.”

5 dicas para lançar sua cerveja

Já conferiu o vídeo do Leo Gil, da Three Monkeys Beer? Ele fez uma lista com cinco dicas para quem quer empreender no mercado de cerveja. Confira o passo a passo para você construir sua empresa e sua marca, e lançar sua cerveja da melhor maneira no mercado. Assista agora!

Vídeo dicas cerveja

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