Bootstrapping: a técnica de crescer sem investimento

Já ouviu falar em bootstrapping? Talvez, não. Mas com certeza já o viu acontecer em muitas startups. O bootstrapping é, basicamente, sobreviver e crescer sem nenhum investimento externo. Mas, calma. Não é tão simples e existe toda uma técnica para isso. É o que vamos te explicar nesse post!

Uma pesquisa realizada pelo Sebrae e pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços analisou startups participantes do programa Inovativa Brasil, que promove ações de assistência e capacitação.

Foram ouvidas 1.044 startups, principalmente de Tecnologia da Informação e da Comunicação (31%), Desenvolvimento de Software (21%) e Serviços (18%). O resultado do estudo é preocupante: cerca de 30% das startups analisadas simplesmente faliram.

Bootstrapping

Os principais motivos do fechamento dessas startups, segundo elas, foram:

Dificuldade de acesso a capital (40%);

Obstáculos para entrar no mercado (16%);

Divergências entre os sócios (12%).

Percebeu como, para a grande maioria das startups, o maior empecilho é o investimento?

Hoje o mercado de startups está bem aquecido. Existem inúmeros programas de incentivo, investidores-anjo, incubadoras e aceleradoras. Além dos fundos de investimento de venture capital.

Há, ainda, os recursos públicos de fomento, oferecidos por fundações, editais de inovação para a indústria e pelo Sebrae.

Porém, para as startups em busca de alternativas para a necessidade de levantar investimento, a prática do bootstrapping pode ser a solução. É uma maneira de se desenvolver de forma financeiramente autossustentável, sem receber aporte.

O que é bootstrapping e como funciona?

Muitos empreendedores acreditam que precisam de investimento logo no começo, antes de construir uma solução mais madura ou estruturar seus processos. Antes, é indicado fazer parte de um ecossistema, aprender e conquistar um mentor.

Isso pode ser mais importante para o começo de uma startup do que o investimento financeiro em si. Quem afirma é Alexandre Souza, gestor do Startup SC, uma iniciativa do Sebrae-SC que oferece capacitação e mentorias para empreendedores iniciantes em tecnologia.

Bootstrapping é quando o empreendedor começa seu negócio usando apenas recursos próprios. Esse recurso pode vir de economias individuais, de um fundo dos sócios, da ajuda de parentes e até mesmo da venda de MVPs. Normalmente é um valor limitado que irá ajudar nos primeiros passos da startups.

Alexandre destaca que a principal vantagem do bootstrapping é estruturar o negócio de maneira independente. “Em um segundo momento, começar com bootstrapping pode ajudar o empreendedor a conquistar investimento na hora de escalar, pois a solução já estará completamente validada e investidores vão se sentir mais seguros em realizar um aporte na empresa.”

Qualquer startup pode fazer bootstrapping?

Alexandre Bootstrapping
Alexandre Souza, gestor do Startup SC (Foto: Divulgação)

“Sim, qualquer uma pode adotar”, responde, prontamente, Alexandre. Segundo ele, o termo faz muita gente pensar em tecnologia, mas qualquer empresa, de qualquer setor, pode realizar bootstrapping.

Por exemplo, alguém que deseja abrir uma padaria pode começar vendendo doces caseiros, com um pequeno investimento próprio, e conforme cresce ir expandindo até ter um rede de franquias.

“O ideal nas empresas de tecnologia que querem começar por conta própria é pensar em soluções que possam ser testadas aos poucos e validadas rapidamente.”

Há quem diga que “bootstrappers” costumam ser empreendedores com capacidade muito acima da média, e raramente são iniciantes.

Para Alexandre, o ensino do empreendedorismo no país ainda é rudimentar e por isso alguns mitos se criaram ao redor do empreendedor.

É difícil começar a crescer com as próprias pernas, mas é possível com planejamento, estudo e a ajuda de mentores e outros profissionais que já enfrentaram aquele desafio antes.

“Algumas vezes uma rede de apoio contribui mais para o desenvolvimento do negócio do que o investimento financeiro.”

O bootstrapping é mais indicado, diz Alexandre, principalmente no início da startup ou na validação de uma nova solução. Mas é preciso ter cuidado ao fazer bootstrapping.

“É necessário estar muito consciente das suas finanças e saber priorizar gastos e economizar muito. No começo o orçamento será apertado, então priorizar gastos é fundamental para dar certo.”

Como começar uma startup sem investimento?

Quando se fala em startup, é muito comum ligar o termo a investimento. Se você empreende em startup ou pretende começar essa jornada, cuidado ao seguir a obsessão cega da maioria por investimento.

Alexandre lembra que antes de pensar em investimento é necessário saber se a solução que sua startup desenvolve vai resolver um problema real de um setor ou de um grupo de pessoas. “Quando você tem o problema bem definido, pode trabalhar para construir uma solução. Se a dor se mostrar efetiva e a solução eficiente, os clientes vão aparecer.”

Claro que isso não significa que sua startup não vai precisar de investimento em algum momento. Principalmente se for de tecnologia, o custo para desenvolvimento pode ser alto. “Mas se você resolve um problema claro do mercado, também será mais fácil conquistar os primeiros investidores.”

Para começar uma startup sem investimento, Alexandre indica: “Encontre um problema e valide ele. Você não tem chances para errar, toda sua reserva e às vezes todo o conforto da sua família estarão naquela ideia, então é fundamental validar com o maior número de pessoas possível”.

Ele conta que nesse processo você poderá sentir o tamanho da dor do público que pretende atingir. Quem sabe até oferecer um MVP para essas pessoas testarem, por um preço abaixo do que pretende cobrar no produto finalizado.

Firmar parcerias com futuros clientes também pode ser uma boa saída para quem deseja começar com bootstrapping. “Outra opção é fazer dupla jornada, manter um emprego fixo e no tempo livre empreender. Você também pode se comprometer em reservar uma parte do seu salário durante um tempo, para depois começar a empreender.”

5 dicas para fazer bootstrapping

Aprender com exemplos bem sucedidos é uma ótima maneira de cortar caminho até o sucesso. Por isso, compartilhamos a seguir quatro histórias de startups que praticaram bootstrapping para crescer.

Economize antes

A Coblue é uma empresa pioneira no desenvolvimento de software para gestão de OKR, método de gestão de resultados chave para instituições. Desenvolver uma plataforma como essa era inovador para o mercado brasileiro.

Os dois sócios assumiram o risco e uniram suas economias para dar o aporte inicial à startup. Para a empresa prosperar, a capacitação fez diferença. A CoBlue participou do Startup SC, e em três anos de atuação, já impactou mais de 30 mil pessoas.

O faturamento atual ultrapassa R$ 1 milhão, e a startup segue sem nenhum investimento externo.

Economize durante

A OSTEC Business Security desenvolve soluções e produtos para segurança no meio digital. A empresa, fundada em 2005, teve o aporte inicial realizado pelos primeiros clientes. Os sócios firmaram uma série de contratos para prestação de serviço, que não totalizavam mais do que R$ 1 mil mensais.

A ideia era prestar apoio para os primeiros clientes enquanto o produto era desenvolvido. Quando a solução foi finalizada, esses primeiros clientes tiveram acesso prioritário.

Para se manter com uma renda de R$ 1 mil mensais a empresa buscou o apoio de uma incubadora. Lá eles conseguiram usar um espaço físico para trabalhar, cortando custos durante o desenvolvimento. Os maiores custos envolviam a parte de impostos e contabilidade.

O pouco que sobrava era utilizado para despesas com viagens, participação em eventos e um pouco de reinvestimento.

Comece vendendo

A Cheesecake Labs é uma empresa de desenvolvimento e design de aplicativos que nasceu em 2013. Nenhum dos sócios possuía uma grande reserva para começar a empreender. Foi nesse momento que as conexões deles fizeram diferença.

Com experiência internacional e uma rede forte de contatos, os quatro sócios utilizaram o seu know-how para crescer, conseguindo o aporte inicial da renda que recebiam pelos trabalhos feitos.

Em toda sua trajetória, a Cheesecake nunca recebeu investimentos financeiros. Hoje conta com 50 colaboradores e uma carteira de clientes que abrange mais de 20 empresas, sendo mais de 70% de fora do país. Cresceu seu faturamento em quase 100% no último ano e prevê um crescimento de 80% para 2018.

Se não vender, pivote

A Involves, desenvolvedora do software para gestão de trade marketing, nasceu em 2008 com um investimento de R$ 600 mais as cadeiras e computadores de cada um dos seis sócios. Os seis cofundadores são amigos desde a universidade, principalmente por compartilharem o palco tocando rock nas festas universitárias da época.

No início, eles trabalhavam na casa dos pais de um dos sócios, e dividiam um pró-labore como salário. Desenvolveram e testaram mais de 10 produtos, até chegar ao Agile Promoter. O software é uma plataforma de gestão de trade marketing e merchandising em tempo real utilizada por empresas que atuam em segmentos como alimentos e bebidas, eletroeletrônicos, informática e cosméticos.

Atualmente, eles têm clientes no Brasil e na América Latina, grandes nomes como L’Oréal, Motorola e Red Bull. São 307 clientes e mais de 32 mil pessoas utilizando seu aplicativo. Em 2017, a startup faturou R$ 18 milhões, representando um crescimento de 60% em relação ao ano anterior. Dez anos após sua fundação, a Involves segue sem ter recebido investimento externo.

E não fique sozinho

Como o gestor do Startup SC, Alexandre Souza, ressalta, ter ajuda de mentores e pessoas mais experientes é de grande valia. Na iniciativa do Sebrae-SC, por exemplo, durante cinco meses as startups passam por uma série de atividades, cursos, workshops e consultorias. Além de terem acesso a outros benefícios, como créditos para a plataforma da IBM e Google Cloud.

A ideia da iniciativa é usar a experiência de empreendedores mais maduros para alavancar quem está começando. O programa é totalmente gratuito e tem uma excelente taxa de sucesso: mais de 140 empresas já passaram pela capacitação, e cerca de 64% ainda estão ativas.

Assim como esse existem outros programas semelhantes em todo o país e, inclusive, com oportunidades no exterior. Fique atento às inscrições, reforce sua rede de contatos e não tenha medo de ir atrás de ajuda. O mercado está cheio de empreendedores experientes querendo crescer junto com você. Tire proveito disso!

Deixe um comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *